O resultado desse projeto
de extensão que visava, além de uma introdução ao trabalho de campo em
antropologia, realizar um levantamento da cena de festas e entretenimento em
Cuiabá, foi surpreendente, tanto para a tutora das atividades, como aos
próprios participantes.
O trabalho de campo,
baseado na maioria dos casos em observação participante e em outros em
entrevistas, foi um pequeno treino, sem a profundidade da experiência
profissional, mas possibilitou aos aprendizes algumas conquistas. Primeiro,
fizeram um exercício de relativizar suas concepções em face da visão de mundo
dos “nativos”. Segundo, exercitaram um olhar para os detalhes que compõem os
cenários sociais das pessoas que ocupam um dado lugar. Terceiro, foram capazes
de perceber a necessidade de conceitos mais focados para empreender a
interpretação do contexto que estudavam, o que os despertou e estimulou para
mais avanços nos estudos na direção apontada pelas observações em campo. Alguns
estudantes não realizaram o diário de campo no formato clássico, de caráter
literário e de detalhada descrição, apresentando seus registros em slides ou de
forma muito resumida. Ainda assim, houve ganhos, pois na apresentação oral em
sala, foi possível perceber a potencialidade de vários desses campos para
futuras pesquisas.
Foi surpreendente
descobrir que a cidade do rasqueado, do cururu e do siriri tem uma diversidade
em festas e entretenimento riquíssima. Descobrimos um espaço underground de
rock metal respeitado por seus frequentadores, onde se observa que os usuários
não são apenas fãs de um gênero musical, há a aderência a um estilo de vida, no
qual as roupas pretas com símbolos típicos compõem com a música, cujas letras
revelam um conteúdo político de contra discurso ao capitalismo. Assim,
observa-se que uma forma de lazer de fato pode conter toda uma visão de mundo.
Trata-se de um objeto que merece ser mais explorado.
As festas de santo tão
conhecidas na cidade apareceram como, além de uma forma de religiosidade e
lazer, um dos componentes ativos na urbanização da capital cuiabana. Muitos
bairros novos surgem em conjunto com uma igreja e a festividade a um santo
católico. Esse é um dos resultados que um grupo de alunos alcançou fazendo um
pequeno trabalho de campo baseado em entrevistas com moradores antigos e
representativos do bairro Pedregal.
Na terra do rasqueado há também espaço para um
movimento chamado Flash Back anos 80, o qual integra diversos grupos, alguns
antigos contando já mais de 20 anos, e onde, além de realizarem festas baseadas
em trilha sonora dos anos 80, ainda
participam caracterizados com roupas supostamente típicas da época. Segundo
seus protagonistas, o movimento é aberto, recebe qualquer pessoa interessada,
mas os grupos são fechados. Há grupos com centenas de componentes. A festa de
aniversário de um desses coletivos reuniu algumas dezenas de pessoas, de todas
as faixas etárias em uma festa que durou o dia inteiro a um custo simbólico e
divertiu de diversas formas seus componentes. Inicia com um café da manhã
coletivo e termina só depois do jantar, ou seja, é um exemplo do “passar dia”
cuiabano, expressão relativa ao costume local de ir para a casa de alguém no
fim de semana e só voltar para casa depois do jantar. Como alguns deles já
contam com, ao menos duas décadas de funcionamento, recria-se nessa forma de
lazer um ethos de “comunidade”, pois todos se conhecem, uma tendência que, ao
meu ver, se repete em vários contextos cuiabanos.
A diversidade da
expressão cultural local tem lugar ainda para uma sociabilidade intitulada
Batalha do rap, a qual reúne jovens da periferia na Praça República todas as
quintas feiras às 19 horas em grupos que disputam 2 e até 3 rounds de raps
poéticos e rimados, se assim exige a plateia. Em conversa, um dos protagonistas
disse que qualquer movimento expressivo da periferia é visto como coisa de
“bandido”. Outro justificou aquela
presença coletiva de jovens e negros na praça acontece em função de que “os
espaços culturais são bastante elitizados em Cuiabá, são espaços caros,
majoritariamente de pessoas brancas. Já a batalha é feita por pessoas negras,
que estão rimando e falando sobre sua realidade, ou simplesmente se
manifestando.” Embora haja poucos contextos de expressão para os jovens da
periferia cuiabana, a polícia faz abordagens agressivas àqueles que ali se
aglomeram, muitas vezes alcançando seu objetivo de afastar os jovens da praça,
uma vez que um dos jovens poetas ali presente afirmou que já observam diminuiçao
na comparência. Os aprendizes de pesquisadores identificaram também a
existência de outras batalhas do rap conhecidas por Batalha das Minas e Batalha
do Pedra 90.
Outro local digno de
destaque é o bar dos motociclistas, que reúne além do bar, uma oficina de motos
e uma barbearia. O som ambiente é de rock metal e ali servem cerveja entre
outras bebidas.É um local eminentemente masculino, cuja construção visual,
indica sua restrição ao universo dos motociclistas, contudo, uma conversa com
os frequentadores desconstruiu essa primeira impressão. Segundo a pesquisadora,
é um ponto de encontro de pessoas conhecidas do motociclismo, mas não é
restrito a isso, pois encontrou em outras mesas pessoas que não participavam do
movimento e moradores das proximidades que admiram o movimento de
motociclistas. Essa única experiência que consistiu de apenas algumas idas ao
campo fez a estudante notar alguns problemas para desenvolver a pesquisa: a
uniformidade dos gostos de seus interlocutores conduziu a que as respostas às
perguntas formuladas fossem basicamente as mesmas. Isso a fez perceber a
importância de se familiarizar mais com o grupo de modo a conseguir
aprofundamento em seu universo simbólico. Ao perceber que os vários
funcionários e o proprietário do negócio usavam o mesmo estilo de roupa, sondou
a respeito disso. A resposta do proprietário mostrou que se trata de algo mais
do que um comércio. É, segundo suas palavras, um modo de vida que tem uma
influência americana. A estudante afirma ter inclusive cometido uma gafe
chamando-os diversas vezes de “motoqueiros”, ao que foi gentilmente corrigida e
informada que o termo certo é “motociclistas”. Experiência que permitiu à
aprendiz ter seu primeiro contato antropológico com uma categoria nativa.
Segundo o interlocutor, o primeiro termo tem uma conotação pejorativa. Uma das
perguntas da aprendiz conduz a uma resposta que indica a existência de
preconceitos contra os motociclistas e a associação de sua imagem com bagunça e
vandalismo, uma impressão que também fazia parte do juízo da pesquisadora. Sua
conclusão é interessante: embora a visualidade constitua uma uniformidade no
grupo, as conversas mostraram que não se trata de um coletivo fechado e nem
homogêneo.
O relato sobre o forró no
Bode chic mostra como o interesse da autora por aquele gênero musical facilitou
sua integração em uma cidade estranha e permitiu conhecer o que José Guilherme
Magnani chama de circuito, uma rota de habitués de determinadas práticas urbanas. Em Cuiabá, ela afirma que não
tinha ouvido falar em forró, mas ao manifestar seu interesse, descobriu um
local onde os apreciadores da cultura nordestina, ou especificamente da
culinária e da música nordestina podem se satisfazer, ou para os migrantes
matar a saudade. Seu relato tem um forte tom etnográfico, uma vez que já o
inicia com uma comparação, mostrando como um local comercial incorpora uma
atmosfera doméstica, familiar, de uma casa. A discente do curso de psicologia
captou o espírito do diário de campo. Ela diz: “Quase tudo tem um tom de casa.
À primeira vista não difere de uma casa “familiar” com um amplo alpendre
sombreado por muitas árvores e também, bem ao centro, por um caramanchão
metálico com ramagens espalhadas por ele todo. Logo que se cruza o portão de
entrada, a brita que forra o chão oferece passos tão incertos quanto quando se
é visita na casa de alguém pouco íntimo. As cadeiras de vime de assento largo
obrigam maior relaxamento para acessar o encosto e as mesas, da altura dos
joelhos, até fazem possível descansar as pernas sobre elas. Não estivessem as
mesas e cadeiras agrupadas e habitadas por alguns clientes distribuídos de
forma aleatória, assim como a iluminação sobre elas, eu tocaria a campainha e
esperaria alguém de dentro permitir que entrasse.” Esse passo inicial de
investigação revelou alguns obstáculos da pesquisa social: uma dificuldade de
empatia dos entrevistados com o interesse da pesquisadora. A entrado no campo
de pesquisa sempre oferece essas barreiras iniciais para integração. É uma
característica da vida social que cada grupo tenha suas fronteiras e que exija
alguma negociação para ultrapassá-las. Em pouca conversa, a discente descobre
que já existiu um Centro de Tradições Nordestinas, localizado no CPA, fechado
falta de uma administração adequada, segundo o informante. O local, bode chic,
deve sua existência devido ao sonho do proprietário, um migrante
pernambucano, e das demandas dos
migrantes nordestinos em Cuiabá para que houvesse um local expressivo dessa
cultura regional. Seu sonho ainda é deixar uma praça em Cuiabá com um estátua
de Luiz Gonzaga.
Outro registro
interessante é o que foi feito na Casa Rio, localizada próxima ao Museu do Rio,
onde se reúne um público “alternativo”, nas palavras dos administradores do
local. Essa é mais uma categoria nativa, que se refere à jovens universitários
e LGBTs que escolheram o local porque ali podem se expressar sem interdição de
orientação de gênero. O preço baixo da entrada e o fato de ser “rolha free”
atrai centenas de jovens que formam fila
no local carregados com isopores cheios de bebidas alcoólicas e lotam o espaço
localizado na casa centenária proveniente do tempo da escravidão, com
capacidade para 1.600 pessoas, considerando o espaço do quintal. Devido a isso
esse programa é conhecido entre seu público como “rolê econômico”. O relato
descreve a diversidade do público presente e define, ao mesmo tempo, o que quer
dizer “público alternativo”: “Homens de perucas baratas e vestidos emprestados
de alguma amiga, claramente saindo “montado” de casa pela primeira vez; drag
queens profissionais, casais heterossexuais expressando toda sua paixão,
camisetas polos e bonés de aba reta, camisetas transparentes e maquiagem, sem
camisas e shorts curtos e muito, mas muito glitter. Aparentemente, se torna
necessário pelo menos um copo de bebida alcoólica na mão. Nesse ponto, a música
predominante ainda era o POP internacional e nacional. Contudo, conforme a
festa progredia na noite, os ritmos musicais tocados pelos DJs se tornam os
mais distintos possíveis, chegando até mesmo a ser cômico, passando por vários
os gêneros musicais de Punk Rock e Pop, chegando a ir à “Sofrência” e
Lambadão.”
O resultado desse projeto de extensão que
visava, além de uma introdução ao trabalho de campo em antropologia, realizar
um levantamento da cena de festas e entretenimento em Cuiabá, foi surpreendente, tanto para a tutora das
atividades, como aos próprios participantes.
O trabalho de campo, baseado na maioria dos casos em observação
participante e em outros em entrevistas, foi um pequeno treino, sem a
profundidade da experiência profissional, mas possibilitou aos aprendizes
algumas conquistas. Primeiro, fizeram um exercício de relativizar suas
concepções em face da visão de mundo dos “nativos”. Segundo, exercitaram um
olhar para os detalhes que compõem os cenários sociais das pessoas que ocupam um
dado lugar. Terceiro, foram capazes de perceber a necessidade de conceitos mais
focados para empreender a interpretação do contexto que estudavam, o que os
despertou e estimulou para mais avanços nos estudos na direção apontada pelas
observações em campo. Alguns estudantes não realizaram o diário de campo no
formato clássico, de caráter literário e de detalhada descrição, apresentando
seus registros em slides ou de forma muito resumida. Ainda assim, houve ganhos,
pois na apresentação oral em sala, foi possível perceber a potencialidade de
vários desses campos para futuras pesquisas.
Foi surpreendente descobrir que a cidade do rasqueado, do cururu
e do siriri tem uma diversidade em festas e entretenimento riquíssima.
Descobrimos um espaço underground de rock metal respeitado por seus
frequentadores, onde se observa que os usuários não são apenas fãs de um gênero
musical, há a aderência a um estilo de vida, no qual as roupas pretas com
símbolos típicos compõem com a música, cujas letras revelam um conteúdo
político de contra discurso ao capitalismo. Assim, observa-se que uma forma de
lazer de fato pode conter toda uma visão de mundo. Trata-se de um objeto que
merece ser mais explorado.
As festas de santo tão conhecidas na cidade apareceram como,
além de uma forma de religiosidade e lazer, um dos componentes ativos na
urbanização da capital cuiabana. Muitos bairros novos surgem em conjunto com
uma igreja e a festividade a um santo católico. Esse é um dos resultados que um
grupo de alunos alcançou fazendo um pequeno trabalho de campo baseado em
entrevistas com moradores antigos e representativos do bairro Pedregal.
Na terra do rasqueado há também espaço para um movimento chamado
Flash Back anos 80, o qual integra diversos grupos, alguns antigos contando já
mais de 20 anos, e onde, além de realizarem festas baseadas em trilha sonora dos anos 80, ainda participam
caracterizados com roupas supostamente típicas da época. Segundo seus
protagonistas, o movimento é aberto, recebe qualquer pessoa interessada, mas os
grupos são fechados. Há grupos com centenas de componentes. A festa de
aniversário de um desses coletivos reuniu algumas dezenas de pessoas, de todas
as faixas etárias em uma festa que durou o dia inteiro a um custo simbólico e
divertiu de diversas formas seus componentes. Inicia com um café da manhã
coletivo e termina só depois do jantar, ou seja, é um exemplo do “passar dia”
cuiabano, expressão relativa ao costume local de ir para a casa de alguém no
fim de semana e só voltar para casa depois do jantar. Como alguns deles já
contam com, ao menos duas décadas de funcionamento, recria-se nessa forma de
lazer um ethos de “comunidade”, pois todos se conhecem, uma tendência que, ao
meu ver, se repete em vários contextos cuiabanos.
A diversidade da expressão cultural local tem lugar ainda para
uma sociabilidade intitulada Batalha do rap, a qual reúne jovens da periferia
na Praça República todas as quintas feiras às 19 horas em grupos que disputam 2
e até 3 rounds de raps poéticos e rimados, se assim exige a plateia. Em
conversa, um dos protagonistas disse que qualquer movimento expressivo da
periferia é visto como coisa de “bandido”.
Outro justificou aquela presença coletiva de jovens e negros na praça
acontece em função de que “os espaços culturais são bastante elitizados em
Cuiabá, são espaços caros, majoritariamente de pessoas brancas. Já a batalha é
feita por pessoas negras, que estão rimando e falando sobre sua realidade, ou
simplesmente se manifestando.” Embora haja poucos contextos de expressão para
os jovens da periferia cuiabana, a polícia faz abordagens agressivas àqueles
que ali se aglomeram, muitas vezes alcançando seu objetivo de afastar os jovens
da praça, uma vez que um dos jovens poetas ali presente afirmou que já observam
diminuiçao na comparência. Os aprendizes de pesquisadores identificaram também
a existência de outras batalhas do rap conhecidas por Batalha das Minas e
Batalha do Pedra 90.
Outro local digno de destaque é o bar dos motociclistas, que
reúne além do bar, uma oficina de motos e uma barbearia. O som ambiente é de
rock metal e ali servem cerveja entre outras bebidas.É um local eminentemente
masculino, cuja construção visual, indica sua restrição ao universo dos
motociclistas, contudo, uma conversa com os frequentadores desconstruiu essa
primeira impressão. Segundo a pesquisadora, é um ponto de encontro de pessoas
conhecidas do motociclismo, mas não é restrito a isso, pois encontrou em outras
mesas pessoas que não participavam do movimento e moradores das proximidades
que admiram o movimento de motociclistas. Essa única experiência que consistiu
de apenas algumas idas ao campo fez a estudante notar alguns problemas para
desenvolver a pesquisa: a uniformidade dos gostos de seus interlocutores
conduziu a que as respostas às perguntas formuladas fossem basicamente as
mesmas. Isso a fez perceber a importância de se familiarizar mais com o grupo
de modo a conseguir aprofundamento em seu universo simbólico. Ao perceber que
os vários funcionários e o proprietário do negócio usavam o mesmo estilo de
roupa, sondou a respeito disso. A resposta do proprietário mostrou que se trata
de algo mais do que um comércio. É, segundo suas palavras, um modo de vida que
tem uma influência americana. A estudante afirma ter inclusive cometido uma
gafe chamando-os diversas vezes de “motoqueiros”, ao que foi gentilmente
corrigida e informada que o termo certo é “motociclistas”. Experiência que
permitiu à aprendiz ter seu primeiro contato antropológico com uma categoria
nativa. Segundo o interlocutor, o primeiro termo tem uma conotação pejorativa.
Uma das perguntas da aprendiz conduz a uma resposta que indica a existência de
preconceitos contra os motociclistas e a associação de sua imagem com bagunça e
vandalismo, uma impressão que também fazia parte do juízo da pesquisadora. Sua
conclusão é interessante: embora a visualidade constitua uma uniformidade no
grupo, as conversas mostraram que não se trata de um coletivo fechado e nem
homogêneo.
O relato sobre o forró no Bode chic mostra como o interesse da
autora por aquele gênero musical facilitou sua integração em uma cidade
estranha e permitiu conhecer o que José Guilherme Magnani chama de circuito,
uma rota de habitués de determinadas práticas urbanas. Em Cuiabá, ela afirma que não
tinha ouvido falar em forró, mas ao manifestar seu interesse, descobriu um
local onde os apreciadores da cultura nordestina, ou especificamente da
culinária e da música nordestina podem se satisfazer, ou para os migrantes
matar a saudade. Seu relato tem um forte tom etnográfico, uma vez que já o
inicia com uma comparação, mostrando como um local comercial incorpora uma
atmosfera doméstica, familiar, de uma casa. A discente do curso de psicologia
captou o espírito do diário de campo. Ela diz: “Quase tudo tem um tom de casa.
À primeira vista não difere de uma casa “familiar” com um amplo alpendre
sombreado por muitas árvores e também, bem ao centro, por um caramanchão
metálico com ramagens espalhadas por ele todo. Logo que se cruza o portão de
entrada, a brita que forra o chão oferece passos tão incertos quanto quando se
é visita na casa de alguém pouco íntimo. As cadeiras de vime de assento largo
obrigam maior relaxamento para acessar o encosto e as mesas, da altura dos
joelhos, até fazem possível descansar as pernas sobre elas. Não estivessem as
mesas e cadeiras agrupadas e habitadas por alguns clientes distribuídos de
forma aleatória, assim como a iluminação sobre elas, eu tocaria a campainha e
esperaria alguém de dentro permitir que entrasse.” Esse passo inicial de
investigação revelou alguns obstáculos da pesquisa social: uma dificuldade de
empatia dos entrevistados com o interesse da pesquisadora. A entrado no campo
de pesquisa sempre oferece essas barreiras iniciais para integração. É uma
característica da vida social que cada grupo tenha suas fronteiras e que exija
alguma negociação para ultrapassá-las. Em pouca conversa, a discente descobre
que já existiu um Centro de Tradições Nordestinas, localizado no CPA, fechado
falta de uma administração adequada, segundo o informante. O local, bode chic,
deve sua existência devido ao sonho do proprietário, um migrante
pernambucano, e das demandas dos
migrantes nordestinos em Cuiabá para que houvesse um local expressivo dessa cultura
regional. Seu sonho ainda é deixar uma praça em Cuiabá com um estátua de Luiz
Gonzaga.
Outro registro interessante é o que foi feito na Casa Rio,
localizada próxima ao Museu do Rio, onde se reúne um público “alternativo”, nas
palavras dos administradores do local. Essa é mais uma categoria nativa, que se
refere à jovens universitários e LGBTs que escolheram o local porque ali podem
se expressar sem interdição de orientação de gênero. O preço baixo da entrada e
o fato de ser “rolha free” atrai centenas
de jovens que formam fila no local carregados com isopores cheios de bebidas
alcoólicas e lotam o espaço localizado na casa centenária proveniente do tempo
da escravidão, com capacidade para 1.600 pessoas, considerando o espaço do
quintal. Devido a isso esse programa é conhecido entre seu público como “rolê
econômico”. O relato descreve a diversidade do público presente e define, ao
mesmo tempo, o que quer dizer “público alternativo”: “Homens de perucas baratas
e vestidos emprestados de alguma amiga, claramente saindo “montado” de casa pela
primeira vez; drag queens profissionais, casais heterossexuais expressando toda
sua paixão, camisetas polos e bonés de aba reta, camisetas transparentes e
maquiagem, sem camisas e shorts curtos e muito, mas muito glitter.
Aparentemente, se torna necessário pelo menos um copo de bebida alcoólica na
mão. Nesse ponto, a música predominante ainda era o POP internacional e
nacional. Contudo, conforme a festa progredia na noite, os ritmos musicais
tocados pelos DJs se tornam os mais distintos possíveis, chegando até mesmo a
ser cômico, passando por vários os gêneros musicais de Punk Rock e Pop,
chegando a ir à “Sofrência” e Lambadão.”
Apareceram ainda experiências de campo direcionadas ao estudo da
tradicional Festa de São Benedito na igreja do Rosário. Trata-se de pesquisas
sobre temas já muito estudados, o que em absoluta invalida a iniciativa, dado
que registram alterações na dinâmica
festiva. A festa do santo negro é vista como uma oportunidade para os moradores
das proximidades ganharem algum dinheiro. Contudo, a comunidade religiosa
membros da organização do festejo considerou válidas as exigências da
patrocinadora de não admitir a presença das concorrentes. Dentre elas, a
insatisfação de participantes com a decisão dos organizadores de impedir a
livre circulação de frequentadores portando cerveja de marcas que não estavam
financiando o festejo. Havia uma fronteira física entre o dentro e o fora da
festa controlado inclusive por seguranças, que vetavam a entrada de pessoas que
consumiam cervejas de marcas concorrentes a “burguesa”patrocinadora da festa.
Outra insatisfação foi suscitada pela decisão de separar os participantes entre
um grupo que monta barracas “fora”da região festiva propriamente dita e são
aqueles cujos lucros das vendas são direcionadas para si mesmos e as barracas
que ficam “dentro”, que tem seus
Apareceram ainda
experiências de campo direcionadas ao estudo da tradicional Festa de São
Benedito na igreja do Rosário. Trata-se de pesquisas sobre temas já muito
estudados, o que em absoluta invalida a iniciativa, dado que registram alterações na dinâmica festiva. A
festa do santo negro é vista como uma oportunidade para os moradores das proximidades
ganharem algum dinheiro. Contudo, a comunidade religiosa membros da organização
do festejo considerou válidas as exigências da patrocinadora de não admitir a
presença das concorrentes. Dentre elas, a insatisfação de participantes com a
decisão dos organizadores de impedir a livre circulação de frequentadores
portando cerveja de marcas que não estavam financiando o festejo. Havia uma
fronteira física entre o dentro e o fora da festa controlado inclusive por
seguranças, que vetavam a entrada de pessoas que consumiam cervejas de marcas concorrentes
a “burguesa”patrocinadora da festa. Outra insatisfação foi suscitada pela
decisão de separar os participantes entre um grupo que monta barracas “fora” da
região festiva propriamente dita e são aqueles cujos lucros das vendas são
direcionadas para si mesmos e as barracas que ficam “dentro”, que tem seus rendimentos dirigidos para as obras da igreja.
Essa cartografia do lazer e entretenimento de Cuiabá e região me permitiu formular uma hipótese de trabalho quanto ao modo de lazer local: trata-se de um tipo de lazer que usa diferentes dispositivos para recriar contextos de comunidade e familiaridade entre as pessoas. Não são locais onde estranhos se encontram, mas contextos estruturados para recriar a familiaridade. O que acham? Concordam?